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Revisor de textos: quem é e o que faz?

Atualizado: 25 de Set de 2019

Por Mirella Balestero

A prática de revisão de textos é bastante antiga (data do século V, aproximadamente) e complexa, porém ainda pouco valorizada e reconhecida. Em consequência disso, tem-se uma visão distorcida do profissional responsável por essa função.


No decorrer da história, diferentes profissionais do texto foram responsáveis pela revisão, alguns deles são: escribas, copistas, correctores. Atualmente, o profissional responsável pela prática de revisão é conhecido como revisor de textos, englobando, nesta denominação, todos os tipos de revisores, a saber: preparador, copidesque, revisor de provas, revisor-tradutor, entre outros.


É importante destacar que não há, ainda, consenso em relação ao termo mais adequado para se referir ao profissional responsável pela revisão de textos, e cada instituição/editora adota uma terminologia diferente.


Esse “caos terminológico”, como apontado por Muniz Jr (2010, p. 21), é reflexo de todas as problemáticas que envolvem a área da Revisão – questões socio-históricas, políticas, financeiras, culturais e outras.


Essa imprecisão terminológica em relação aos processos da Revisão interfere na profissão do revisor, que é prejudicado e desvalorizado (i) pela não regulamentação da sua categoria no extinto Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), ou seja, a atividade do revisor não se encontra definida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) - que reconhece e nomeia as ocupações do mercado de trabalho brasileiro; e (ii) pelo imaginário do que seria sua função de revisor de textos que, a partir de uma visão distorcida, o sobrecarrega e o marginaliza.


Conscientes das problemáticas do domínio (que não iremos nos ater com detalhamento aqui), é possível compreender melhor quem é o revisor de textos e o que ele faz (ou deveria fazer).


O revisor é, então, um profissional do texto (como o editor e o tradutor) responsável por “facilitar a tensão entre o significado intencional e o significado recebido” (YAMAZAKI, 2007, p.7), isto é, faz uma intervenção no texto do outro – apontando, adequando, corrigindo ou solucionando determinados problemas, linguísticos ou não – levando em consideração o objetivo do texto, o público-alvo e o meio que irá circular.


Em outras palavras, o revisor (ou preparador, ou copidesque, ou revisor final) precisa dominar, além da gramática normativa (aquela ensinada na escola), o funcionamento da língua, contemplando, em um texto, todos os níveis linguísticos (morfossintaxe, semântica, pragmática, léxico, discurso) e tipos de revisão (quando for solicitado para isso).


Alguns exemplos: adequar a linguagem para o público, tornar o texto mais fluido, conferir frases e palavras repetidas, eliminar ambiguidades, corrigir desvios de acentuação, de concordância, de pontuação e de vírgula, corrigir convenções de escrita (ortografia), padronizar o texto de acordo com uma norma (como ABNT), reescrever ou sugerir alterações para trechos confusos, entre outros aspectos.


Em síntese, o revisor não é o profissional que “cata erros” e os corrige, simplesmente, mas é quem “cria condições mais favoráveis para o esquema comunicativo” (YAMAZAKI, 2007, p.7). E não é aquele que dá só uma “olhadinha” no texto do outro (como o texto daquela prima que vai apresentar o TCC). Revisar um texto requer conhecimentos aprofundados sobre a língua e o seu funcionamento (ver artigo Formação do revisor de textos).


A partir dessa conversa, visamos desconstruir o imaginário do que é o revisor de textos e o que ele faz. Claro que no mercado editorial as funções do revisor podem ser diferentes, contemplar uma ou mais funções, receber nomes distintos, ser responsável por outras atividades etc., mas o importante é reconhecer a complexidade da prática e tornar o revisor um profissional mais conhecido e valorizado. Ademais, busca-se uma maior visibilidade do revisor de textos e o seu reconhecimento contribui para que o profissional seja melhor remunerado.


Referências:


YAMAZAKI, C. Editor de texto: quem é e o que faz. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30., Santos. Anais [...] Santos: Intercom, 2007. p. 1-16


BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Secretaria de Políticas Públicas de Emprego. Classificação Brasileira de Ocupações – CBO. 3. ed. Brasília: MTE; SPPE, 2010.


MUNIZ JR., J. de S. O trabalho com o texto na produção de livros: os conflitos da atividade na perspectiva ergodialógica. 2010. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

Sobre a autora

Mirella Balestero é mestre em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (FCLar-UNESP). Possui graduação em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atualmente desenvolve pesquisas em Linguística, com ênfase em Estudos do Léxico - Terminologia e Terminografia - e em Revisão de Textos. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Terminologia (GETerm), da Universidade Federal de São Carlos e do Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC/ICMC-USP).


(Fonte: Currículo Lattes)


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