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Os riscos de uma tradução fria


A comunicação é uma atividade que exercemos sem nem nos darmos conta. Ela nos soa tão natural e inerente ao nosso ser que, inclusive, mal paramos para pensar sobre como nos relacionamos com ela no dia a dia.


É claro que aprendemos sobre a língua portuguesa durante nossos longos anos escolares, começa no ensino fundamental e termina lá no ensino médio. Aprendemos como formar sílabas, palavras, sentenças e textos. Então, quando estamos formulando um texto para fins mais formais, como por exemplo, um email ou uma apresentação para um cliente importante ficamos mais atentos com o modo como iremos nos comunicar, damos atenção ao vocabulário, normas gramaticais, etc.


Mas a comunicação vai muito além de regras e estruturas. Ela também é construída socialmente e, por isso, muda constantemente, por mais que nós não enxerguemos.


Mas a língua muda?


Tomemos como exemplo o clássico pronome de tratamento: você. Inicialmente, ele era utilizado como “Vossa Mercê”, em seguida passando para “Vosmecê”, “você”, e, temos visto mais frequentemente os usos “ocê” e “cê”.


Antigamente, o "Vossa Mercê" era uma forma de tratamento utilizada apenas para o rei e a rainha, porém com o crescimento da classe burguesa, o pronome começou a ser utilizado de maneira mais abrangente, até que acabou se popularizando e se tornou uma forma respeitosa utilizada para tratar qualquer pessoa.


(Fonte: Revista Contextos Linguísticos; De “vossa mercê” a “cê”: os processos de uma mudança em curso - Edenize Ponzo Peres)


Com o grande uso desse pronome, o mesmo foi passando por transformações fonéticas e morfológicas, até chegar em “você”. Nos últimos anos, tem sido cada vez mais comum ouvir em uma conversa informal os usos de “ocê”, considerado uma variante mais característica do interior, assim como “cê”. E não é preciso ir muito longe para ouvir essas formas de tratamento. Se você começar a reparar, é possível ver esses usos em muitas conversas cotidianas, como por exemplo: “cê vai almoçar?”; “cê me passa aquela caneta?”


Isso mostra que a língua muda por ser social. Os acontecimentos da sociedade, como o crescimento da burguesia, popularizou essa forma de tratamento, pessoas de outras classes e outros círculos começaram a usá-la e isso deu vida a outras variantes desse pronome.


Não vamos entrar no mérito de dizer se esses usos são bons ou ruins. Vamos fazer melhor, vamos pensar juntos: por mais que isso não seja dito ou ensinado, as pessoas se apropriaram desses usos e, mais que isso, sabem muito bem quando podem ou não ser usados. Dificilmente, ouviremos alguém utilizar o “cê” com outra pessoa que não tem intimidade ou que esteja em um ambiente muito sério fazendo uma apresentação, por exemplo.


Isso só mostra que apesar de não pensarmos muito sobre como utilizamos a língua, sabemos quase que por intuição quando devemos usar o “cê” e quando é necessário usar o “você”.


Mas o que isso tem a ver com tradução?


A partir do que vimos anteriormente, pudemos observar brevemente que a língua não é tão simples quanto parece. Um simples uso de um “você” em vez de “cê” diz muito, não só sobre a língua, mas sobre o contexto e a própria pessoa que está falando.


Agora, vamos levar isso para o mundo da tradução. Quando falamos desse tipo de serviço, temos a tendência de achar que é simplesmente jogar o texto no Google Tradutor ou qualquer outra plataforma online de tradução. Ou ainda, acredita-se que qualquer pessoa que tenha conhecimento mínimo do idioma consiga realizar esse serviço, já que é só “trocar as palavras” de uma língua para outra.


Esse tipo de tradução é o que chamamos de tradução fria, ou seja, em que não há uma análise prévia sobre o contexto e o seu público. Apenas trabalha com o texto em si, desconsiderando outros fatores que podem afetar a compreensão do material a ser traduzido.


É claro que esse tipo de plataforma de tradução faz um ótimo serviço e cada vez mais tem sido aprimorada para entregar traduções mais completas e corretas. No entanto, muitas das vezes esse tipo de tradução ainda deixa a desejar.


Mas quais são os riscos desse tipo de serviço?


Tradução incompleta


Ao utilizamos ferramentas online automatizadas para esse tipo de serviço, corremos o risco de ter uma tradução incompleta, já que às vezes o software não consegue entender a estrutura da sentença e acaba não traduzindo algumas palavras.


Quando recorremos a pessoas sem grande conhecimento do idioma para realizar esse tipo de serviço, o risco de encontrar palavras não traduzidas é menor. No entanto, dependendo da especificidade do material ou do texto a ser traduzido, a chance de encontrar palavras e expressões técnicas são maiores e, como o tradutor não domina muito bem a língua, ele corre o risco de cometer equívocos na tradução.


Por isso, em casos de traduções de textos de áreas muito específicas, o ideal é que encontre um profissional que já tenha muita experiência na área (seja por meio de formação acadêmica ou trabalhos nesses nichos) e que domine completamente o idioma.


Sentenças mal estruturadas


As línguas são diferentes e cada uma tem sua própria especificidade, não só no âmbito das palavras, mas também na estruturação de sentenças. Isso porque cada idioma possui normas que diferem umas das outras. Por exemplo, sempre que vamos qualificar um sujeito no Português, o adjetivo vem depois desse sujeito. Já no inglês, no entanto, essas qualificações vem antes do sujeito. Esse é um exemplo bem simples, mas que nos permite visualizar os tipos de dificuldades que podemos ter caso seja feita uma tradução rápida e sem conhecimento aprofundado da língua de origem e da língua de destino.


Tradução sem sentido


Muitas vezes, quando estamos lendo um texto em Português de uma área muito específica, acontece de nos depararmos com uma palavra que, apesar de ser comum, na verdade ela pode ter um significado totalmente diferente devido ao contexto. Por isso, é preciso um conhecimento muito aprofundado para conseguir identificar qual significado utilizar para aquele texto, pois caso contrário, pode comprometer todo o entendimento do texto.


Se isso já acontece comumente em textos da nossa língua e corremos o risco de nos confundirmos, em outro idioma esse tipo de equívoco pode ser muito mais comum e passar batido, seja por um software, como por um tradutor que não esteja familiarizado com o tema e área do texto.


Ignorar a barreira cultural de outro idioma


Já falamos um pouco na introdução desse post sobre como a língua muda constantemente e que boa parte dessas mudanças são devido ao fato de serem sociais. Sendo assim, existem muitas expressões, palavras e conceitos que são intrínsecos a esse idioma e que se traduzidos de maneira literal, ignorando todo esse embasamento cultural, perde-se o sentido do enunciado e pode, até mesmo, tornar a experiência do leitor negativa.


Um bom tradutor (seja um software ou o próprio profissional da linguagem) é capaz de identificar essas questões e, por meio do conhecimento, não só linguístico, mas também cultural do outro idioma, conseguir não só substituir mas também adequar o texto para que fique compreensível para o leitor.


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