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O que é Preconceito Linguístico?




Provavelmente você já vivenciou a seguinte situação: durante uma conversa você ou outra pessoa foi interrompida por alguém que disse que a pronúncia de uma determinada palavra estava errada, e isso foi constrangedor ou desconfortável.


Se isso já aconteceu, você presenciou um ato de preconceito linguístico. Mas o que exatamente é isso?


O preconceito linguístico é a discriminação com base no modo de falar de algumas pessoas, comumente àquelas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio. Mas você pode se perguntar o que há de mais nisso, já que existe uma gramática e as pessoas continuam preferindo cometer erros como, por exemplo, dizer "pobrema" ou "nós vai".


Quando dizemos que uma pessoa comete erros partimos do pressuposto de uma idealização da língua, que toma como referência a gramática normativa ensinada nas escolas e nos livros. Essa gramática representa um tipo específico do uso da língua, que é privilegiada por pertencer a elite.


A partir desse pressuposto surge o preconceito linguístico, pois esse deriva da construção de um padrão imposto por uma elite econômica e intelectual, que considera como “erro” e, consequentemente, reprovável tudo que se diferencie desse modelo.


Às vezes, tendemos a pensar que a língua tem como única função a comunicação entre dois ou mais indivíduos, mas ela não se resume a apenas isso. A língua carrega informações muito valiosas sobre o falante e o ambiente que o cerca, por isso, o preconceito linguístico está intimamente ligado a muitos outros preconceitos presentes em nossa sociedade, como o preconceito socioeconômico, o regional e o cultural.


Preconceito socioeconômico


O preconceito socioeconômico é direcionado as pessoas mais “pobres”, que não seguem a norma padrão devido a fatores diversos, como a falta de oportunidades no mercado de trabalho, baixa renda ou pouca escolaridade e, por isso, falam de determinada maneira, utilizando "nois vai" e outras variações que são consideradas desvios pela gramática normativa.


Dizer "nós vamos" não condiz com a realidade desse falante, pois ele não ouve pessoas com quem convive utilizando essa forma, sendo assim, não faz sentido tal uso. A gramática normativa é a base para muitas situações de comunicação, no entanto em outras, ela é deixada de lado, principalmente quando temos em oposição um ambiente que exija escrita e o outro a fala.


Sabemos que ao escrever uma redação para o vestibular, por exemplo, é necessário seguir as normas gramaticais para alcançar a pontuação necessária e ficar mais próximo de conseguir uma vaga na universidade desejada. No entanto, se pensarmos em uma roda de conversa entre amigos na mesa de um bar, é muito comum ouvir sentenças gramaticalmente incorretas, mas por se tratar de um ambiente informal passam despercebidas, já que o cumprimento dessas normas não é uma questão a ser observado nesse ambiente.


Sendo assim, aquele que diz "nóis vai" não está certo ou errado, só está refletindo em seu modo de falar sua condição como indivíduo social. Mas isso não quer dizer que o uso dessa variante seja aceita em todos os lugares, porque como já mencionamos anteriormente, existem ambientes em que essa ocorrência pode ou não ser aceita.


O preconceito linguístico socioeconômico ocorre porque a gramática normativa foi baseada no modo como as pessoas mais “ricas” consideravam melhor, correto ou mais bonito, e isso se perpetua até hoje. No entanto, o questionamento acerca da ideia de que existe alguém que consiga seguir as regras da gramática normativa sem cometer um único equívoco sequer, por mais que esta pessoa seja culta ou instruída, deve ser considerado. A língua é um sistema muito complexo, nesse sentido todos estão propícios a cometer "erros", pois a gramática normativa reflete apenas uma parta da língua que de fato utilizamos no dia a dia.


Preconceito regional


O preconceito regional se baseia nas áreas menos nobres de um determinado local. Como, por exemplo, o uso de biscoito ou bolacha para se referir ao mesmo tipo de comida. Para um determinado grupo de pessoas como os cariocas, o utilizado é biscoito, para os paulistas, é bolacha.


Essas escolhas refletem a origem do falante, o que torna a língua um sistema muito mais rico e variável, sem que seja preciso um estar certo e o outro errado. Significa apenas que há diferentes maneiras de se referir a um mesmo objeto.


Preconceito cultural


O preconceito cultural acontece quando não é respeitado o tipo de linguagem que um determinado grupo possui. No Brasil, é muito comum haver uma aversão a cultura de massa e suas variedades linguísticas. Um exemplo é a música.


O funk é um estilo musical que nasceu nas classes menos favorecidas, com pouco acesso à educação formal, por isso esse gênero utiliza bastante linguagem informal, reflexo de um certo tipo de grupo que está inserido em um determinado ambiente, como já explicitado no tópico Preconceito socioeconômico.


No entanto, assim como há diferentes modos de falar devido às diversas regiões que compõe o Brasil, as variedades culturais também devem ser respeitadas pois são extremamente ricas em diversidade e são parte importantíssima da identidade cultural de seus respectivos grupos.


Mas por que combater o preconceito linguístico?


O preconceito linguístico deve ser discutido porque julgamos o outro pela sua maneira de falar, sem considerar suas condições de realidade, principalmente quando zombamos ou corrigimos constantemente de maneira desnecessária. Ao tomar esse tipo de atitude estamos inibindo esse indivíduo, dificultando seu processo de aprendizagem da língua ou afetando sua relação consigo mesmo. Essas correções podem transmitir a ideia de que o falante é burro, simplesmente por não saber conjugar um verbo com o qual não tem contato.


A língua está em constante mudança, ela acompanha o mundo e suas tendências, por isso nunca é tarde demais para aprender sobre a diversidade linguística que existe nesse vasto território e que pode transformar sua percepção de mundo.


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